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Round 6 e a Onda Coreana: Como a Coreia do Sul Conquistou o Streaming

De Squid Game a Parasita: os fatores econômicos, culturais e industriais que transformaram a Coreia do Sul na potência criativa do século XXI.

21 de setembro de 20268 min de leituraPatrick Bastos

Em setembro de 2021, uma série sul-coreana sobre jogos infantis mortais se tornou o conteúdo mais assistido da história da Netflix — 1,65 bilhão de horas de visualização nas primeiras 28 semanas. Round 6 (Squid Game) não foi um acidente. Foi o resultado visível de décadas de investimento estatal, evolução industrial e uma estratégia cultural que transformou a Coreia do Sul — um país de 52 milhões de habitantes — na maior exportadora de entretenimento per capita do mundo. Entender como isso aconteceu explica mais sobre o futuro do streaming do que qualquer análise de algoritmo.

O plano de 30 anos: como o governo coreano apostou na cultura

A história começa em 1994, quando o governo sul-coreano publicou um relatório interno comparando a receita do filme Jurassic Park com as vendas de automóveis Hyundai. A conclusão foi chocante: um único filme americano gerou receita equivalente à venda de 1,5 milhão de carros. O presidente Kim Young-sam criou o Departamento de Indústria Cultural, e em 1999 o governo aprovou a Lei Básica de Promoção de Indústrias Culturais — um marco que canalizou bilhões de dólares em subsídios diretos para cinema, TV, música e games. A KOCCA (Korea Creative Content Agency), criada para administrar esses recursos, investiu sistematicamente em formação de roteiristas, infraestrutura de estúdios e promoção internacional. Nenhum outro país combinou investimento estatal, infraestrutura de banda larga (a mais rápida do mundo desde os anos 2000) e liberdade criativa nessa escala.

Hallyu: a onda que começou com doramas e K-pop

O termo 'Hallyu' (onda coreana) foi cunhado por jornalistas chineses no final dos anos 1990 para descrever a popularidade crescente de doramas coreanos no leste asiático. Dal Yong Jin, professor da Simon Fraser University, documenta em 'New Korean Wave' (2016) como a segunda fase do Hallyu — impulsionada por redes sociais e streaming — ultrapassou fronteiras regionais. O K-pop (BTS, BLACKPINK) abriu portas culturais que o cinema atravessou: quando Parasita ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2020, foi a culminação de uma estratégia que começou 25 anos antes. O público global já estava familiarizado com estética, ritmo narrativo e temas coreanos — Parasita não precisou se apresentar, só confirmar.

Por que Round 6 funcionou onde outros falharam

Hwang Dong-hyuk escreveu o roteiro de Round 6 em 2009 e passou mais de uma década tentando produzi-lo — todos os estúdios coreanos recusaram. A Netflix comprou os direitos em 2019 como parte de uma estratégia de investimento pesado em conteúdo não-anglófono (a empresa investiu US$ 500 milhões em conteúdo coreano só em 2021). O sucesso de Round 6 combinou fatores específicos: alegoria social universal (desigualdade econômica, dívida, competição por sobrevivência), estética visual marcante (os guardas de máscara, o uniforme verde), e jogos infantis reconhecíveis por qualquer cultura. A série não precisou explicar seu mundo — o público de qualquer país entendeu imediatamente a metáfora.

Os números que mudaram a indústria

Depois de Round 6, os dados do streaming mudaram permanentemente. Segundo a Netflix Top 10 Global, conteúdos em idiomas que não o inglês passaram de 27% para mais de 40% das horas assistidas na plataforma entre 2021 e 2025. Séries coreanas como All of Us Are Dead, The Glory e Physical: 100 entraram repetidamente no top 10 global. O mercado de exportação de conteúdo coreano cresceu de US$ 6,4 bilhões (2019) para US$ 13,2 bilhões (2024), segundo dados da KOCCA. Para efeito de comparação, toda a indústria cinematográfica brasileira exportou cerca de US$ 30 milhões no mesmo período.

O modelo coreano vs. o modelo americano de roteiro

Uma diferença estrutural explica a qualidade consistente dos doramas e thrillers coreanos: o modelo de produção. Nos EUA, séries de TV operam com 'writers' rooms' — equipes de roteiristas que escrevem episódios em paralelo, sob pressão de cronograma. Na Coreia, a tradição é o roteirista-autor único, que entrega o roteiro completo antes das filmagens começarem. Isso produz narrativas mais coesas: cada episódio sabe exatamente para onde a história vai. Round 6, Parasita e Oldboy foram todos escritos por um único autor-diretor. O custo é tempo (séries coreanas levam mais para produzir), mas o resultado é uma integridade narrativa que o modelo de assembly line americano raramente alcança.

O que vem depois do Hallyu

A questão agora não é se a Coreia do Sul vai continuar produzindo conteúdo global — é se outros países vão aprender o modelo. A combinação de investimento público de longo prazo, liberdade criativa, infraestrutura digital de primeira linha e uma cultura que valoriza narrativa como arte (não apenas como produto) criou uma indústria que compete de igual para igual com Hollywood. Para o espectador, o resultado é claro: nunca houve tanta variedade e qualidade disponível em uma tela. E se você quer testar o quanto sabe sobre o universo de Round 6, temos um quiz esperando.

Fontes

Patrick Bastos — Diretor executivo, autor e empreendedor digital, Patrick Bastos atua na criação de projetos que unem conteúdo, tecnologia e experiência do usuário. No MegaQuiz, é responsável pela direção editorial e revisão dos conteúdos.

Última revisão: 21 de setembro de 2026

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